Löwy, M. – Aventuras de Karl Marx II

O marxismo ou o desafio do “princípio da carruagem”

A questão de atribuir ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão teórica, mas sim uma questão prática. É na práxis que o homem precisa provar a verdade, isto é, a realidade e a força, a terrenalidade do seu pensamento. A discussão sobre a realidade ou a irrealidade do pensamento – isolado da práxis – é puramente escolástica.

Karl Marx, Segunda Tese sobre Feuerbach

Karl Marx foi quem chegou à conclusão de que o ponto de vista está necessariamente circunscrito pela classe social. O limite do pensamento de um indivíduo é o limite do seu ponto de vista, condicionado pela classe em que está inserido. Em sua juventude, ele definiu a ideologia como as formas especulativas, idealistas e metafísicas da consciência social.

Então qual é o limite do ponto de vista do próprio Marx? Como é possível analisar os limites do marxismo sob o método do materialismo histórico dialético? Por que o ponto de vista do proletariado é, para ele, o mais favorável ao conhecimento social que o das outras classes?

A pergunta de Michael Löwy em “o marxismo ou o desafio do ‘princípio da carruagem’” é uma pergunta sobre a qual, de maneiras diversas, muitos de nós já passamos o olhar. Porque ela remete à velha questão do equilíbrio entre razão e sensibilidade. Ele busca pensar a convivência entre ideologia e ciência, e para isso assenta sua reflexão na relação entre sociedade e conhecimento. No Dezoito Brumário, Marx coloca alguns pontos que para Löwy, mesmo vindo da juventude desse pensador, são muito importantes para essa reflexão.

A classe, para Marx, “cria e forma” as visões sociais de mundo, cujas teorias são desenvolvidas por seus ideólogos ou utopistas, ou seja, os “representantes políticos e literários” dessa classe. Os ideólogos ou utopistas são os intelectuais, elementos autônomos que não pertencem necessariamente à classe que representam através do pensamento que produzem. Esse pensamento, seja ideológico ou utópico, geralmente se define pelo seu horizonte intelectual. Assim, uma ideologia geralmente comporta uma parte importante de ilusões e auto-ilusões, que são os “limites da razão” aos quais ela consegue caminhar. Não obstante, apesar dessa condição, Löwy afirma estar claro que para Marx ciência e ponto de vista de classe têm uma convivência mútua possível quando ele escreve que “os economistas são os representantes científicos da classe burguesa”. O exercício de Löwy, assim, passa a ser o de aplicar esse raciocínio nas ciências sociais em geral.

O “caráter de classe” não exclui o valor científico de um texto de economia política porque existe uma chamada autonomia relativa da ciência em relação aos seus limites ideológicos. Entretanto há uma distinção entre os teóricos que se comprometem com o entendimento de seu momento histórico e aqueles que se comprometem com os interesses da classe social a que pertencem. Assim, para Marx há dois tipos de economia política: a dos clássicos e a dos vulgares.

Os trabalhos clássicos são altamente científicos mesmo dentro dos limites ideológicos de seus autores. Eles se aproximaram do processo real do sistema capitalista, questionando, até certo ponto, a aparência das relações sociais. Os vulgares, por outro lado, são apologias sem valor para o conhecimento exatamente porque estão presos à superfície imediata das aparências.

Essa constatação tem sua primeira superação no posfácio à segunda edição de O Capital, em 1873, quando Marx afirma que apenas quando a luta de classes permanecia latente é que a economia política garantiu sua objetividade científica; após 1830, quando essa luta fica evidente, a economia política passa a ser uma apologia ao mundo capitalista, perdendo seu caráter científico para o domínio da ideologia. Ou seja, a burguesia enquanto classe revolucionária viveu seu apogeu científico, para depois, como classe dominante, despojar-se dele e usar da ideologia para conservar-se no poder. O que Löwy tenta destacar nesse momento é a metodologia de Marx, a ligação ousada do desenvolvimento da economia política à marcha da história social, fundamental para compreendermos a “concepção marxista da dialética ciência/ideologia e de sua relação com a luta de classes”.

Segundo Löwy, para Marx os economistas clássicos burgueses não cediam aos interesses de sua classe, mas tinham seu pensamento estruturado por uma visão social de mundo, um horizonte intelectual, que os impediu de colocar questões que para ele eram fundamentais. Assim, esses clássicos diferenciam-se do próprio Marx exatamente no momento em que consideram as contradições do modo de produção capitalista como leis naturais da sociedade, portanto contradições da produção enquanto tal, já que concebem a forma burguesa da produção como a produção em sua forma única, original. Com isso Löwy localiza o papel da ideologia na ciência: ela desenha os limites da constituição de um saber científico.

Portanto não é a falta de vontade, mas a impossibilidade de conhecer a verdade é o que caracteriza o limite que a ideologia impõe ao indivíduo, ou seja, o conhecimento está estreitamente ligado à posição social do observador científico; esse limite pode ter suas nuances de acordo com a sensibilidade de cada observador/cientista, hajam vistas, como expõe o próprio Marx, as diferenças entre escritos clássicos como dos economistas David Ricardo e Jean-Charles Léonard de Sismondi. Elas constituem diferentes perspectivas, que para Löwy são a prova incontestável de que é preciso superar visões lineares e evolucionistas do desenvolvimento da ciência social, assim como sua relação com a luta de classes.

Quando a luta de classes se tornou evidente a partir de 1830, é que para Marx a ciência pôde então deixar de ser feita com base nas ilusões e auto-ilusões para ser feita a partir da própria observação da realidade, como reflexão teórica dos fundamentos de uma sociedade historicamente construída, e esta será atualidade de seu pensamento enquanto a produção de mercadorias for o fundamento da existência humana. Nesse momento, ele reivindica para sua própria obra a posição de classe do proletariado, que se encontrava naquele momento em uma condição semelhante àquela da burguesia antes de 1789: carregada de utopias, altamente científica, essencialmente revolucionária. Assim, é enquanto crítica da sociabilidade no capitalismo, enquanto crítica da economia política, que se estrutura o pensamento de Marx e nessa medida, na medida em que é crítica social, precisamente o oposto de uma ideologia, é que se encontra a sua força.

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